Por. NERIVALDO FERREIRA
Dependência cínica
Corrupção é um vício! E dos mais graves e pernósticos.
Pois é... Quem começa tende a aumentar a dose até perder a noção de ética, moral, realidade e humanidade. Acostuma-se com o mau-cheiro e passa a considerá-lo um suave perfume; prostitui-se, mas se acredita puro e inocente; decai até rastejar na lama, apesar de sentir-se no “topo da pirâmide”. Digamos que gera uma “dependência cínica”.
A maior parte dos casos de introdução ao vício da corrupção está no ambiente familiar. Há casos seculares, passados de pai, ou mãe, para filho! Mas nem só de corruptos com linhagem vive esse “grupo de risco” – para a sociedade. Ele é pródigo em aliciar novos adeptos, normalmente já predispostos, por falha de caráter.
A análise dos, ainda, poucos casos expostos pela mídia mostra que tudo começa inocentemente, com as “caixinhas” e “agrados”. Depois, vêm o suborno, com seus muitos nomes e expressões, que vão desde os tradicionais: “comissão”, propina, jabaculê, “por fora”, “molha-mão”, “cala-boca”, etc.; até aos mais modernos, como: “consultoria” e “reserva técnica”, por exemplo. Como em outros tipos de vício, as desculpas para entrar são várias: Há os que dizem que aceitam corrupção porque ganham pouco e precisam comprar o “leite das crianças”. Dão ao ilícito uma conotação de carência social. Só que, depois que a “dependência” se instala, o vício continuará evoluindo mesmo que o salário não seja mais problema. O “leitinho” vai virar férias no exterior, carro importado, casa luxuosa, conta bancária em paraísos fiscais... A partir daí o “viciado” fará de tudo para manter o padrão atingido, perdendo completamente a noção do certo e do errado! A corrupção fará parte de sua vida em qualquer lugar onde estiver: em casa, na rua, no lazer ou num templo religioso.
Como qualquer outro dependente, o corrupto acreditará que ninguém sabe de seu vício. Também crerá que não está preso a ele, e que poderá largá-lo quando desejar. Então, sem perceber, exporá e, até, viciará a própria família, tornando-a tão dependente quanto ele. Criará a cultura do vício, do “todo mundo faz!”, e do “agora é minha vez!”.
Nas prateleiras da vida serão mercadorias sempre à venda!
10%? 20%? 100%? Preço fixo? Tanto faz... O importante é, sempre, “levar algum”! E rapidamente a corrupção tornar-se-á o principal traço de seu caráter!
O corruptor, adaptado aos modernos conceitos de mercado, os chamará, às vezes, de “facilitadores” – das dificuldades que eles próprios criam - ou “lobistas” de um outro tipo de tráfico: o de influência, que transforma cidadãos de quinta categoria, moralmente, em elite. Alguns corruptores até preferem trabalhar dessa forma, pois cultivam um prazer sádico e, também, vicioso por comprar pessoas ou tê-las “na palma da mão”.
Não adianta fazer propagandas falando sobre o mal que uns e outros geram, e o cancro que são... No “céu, com diamantes” onde habitam, ignoram completamente esse tipo de alerta ou sentimento de culpa. Pelo contrário, anseiam por drogas cada vez mais “pesadas”!
Só voltam à realidade, quando sofrem, eventualmente, de uma “crise de abstinência”, ou quando uma “overdose” os expõe, na mídia.
Corruptor e corrupto, no final das contas, não passam de faces opostas de uma moeda de duas caras, descaradas. São componentes de uma mesma “droga”, que lhes dá prazer e financia seus “baratos” e “viagens”, enquanto a população, que paga a conta, tenta ganhar a vida honestamente, trabalhando dia e noite.
O problema, como sempre, é que tem mais gente viciada do que pessoal disposto a combater e erradicar o vício...
FONTE: DIÁRIO DE CUIABÁ
* ADILSON LUIZ GONÇALVES é engenheiro, professor universitário, articulista e poeta
adilson@unisantos.br

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